USP desenvolve colírio com canabidiol para combater inflamações nos olhos
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) estão desenvolvendo uma nova tecnologia para o tratamento de inflamações e dores oculares. A proposta utiliza canabidiol (CBD) em uma nanoemulsão aplicada diretamente nos olhos, buscando proporcionar uma liberação gradual da substância nos tecidos oculares.
O trabalho reúne pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP.
A tecnologia chama a atenção principalmente pela possibilidade de oferecer, no futuro, uma alternativa para determinados problemas inflamatórios oculares sem alguns dos efeitos adversos associados a tratamentos tradicionais.
Por que desenvolver um novo tipo de colírio?
Doenças inflamatórias e degenerativas que atingem os olhos podem exigir tratamentos prolongados.
Entre os medicamentos empregados atualmente estão os corticoides. Apesar de sua importância terapêutica, o uso prolongado ou inadequado desses medicamentos pode estar relacionado a efeitos adversos relevantes, incluindo aumento da pressão intraocular e maior risco de catarata.
Diante desse cenário, pesquisadores procuram novas formas de controlar processos inflamatórios preservando a segurança dos pacientes.
Foi nesse contexto que surgiu a pesquisa da USP envolvendo o canabidiol.
Como funciona o colírio com canabidiol?
Um dos principais desafios encontrados pelos pesquisadores não estava apenas na escolha da substância, mas em descobrir uma maneira eficiente de fazê-la chegar aos tecidos oculares.
A solução estudada foi uma nanoemulsão.
De maneira simplificada, a tecnologia funciona como um sistema capaz de transportar o canabidiol e favorecer sua penetração nos tecidos dos olhos. Outro objetivo é permitir que a substância seja liberada de maneira gradual.
Essa característica pode ser importante porque colírios convencionais apresentam limitações na capacidade de transportar determinados princípios ativos para regiões mais profundas do olho.
Por que utilizar canabidiol?
O canabidiol, conhecido pela sigla CBD, é uma substância estudada por suas potenciais propriedades terapêuticas e não produz os efeitos intoxicantes normalmente associados ao THC.
No caso da pesquisa desenvolvida em Ribeirão Preto, um dos pontos que despertaram o interesse dos cientistas foi a existência de receptores relacionados ao sistema canabinoide nos tecidos oculares.
A estratégia dos pesquisadores é aproveitar esses mecanismos biológicos para obter efeitos anti-inflamatórios e analgésicos.
Estudos apresentaram resultados iniciais promissores
Segundo informações divulgadas pela USP, o desenvolvimento da tecnologia passou por diferentes etapas de investigação, incluindo estudos experimentais e avaliações clínicas.
Os resultados iniciais relatados pelos pesquisadores indicaram que a formulação apresentou menor potencial de irritação em comparação com outras formulações estudadas.
Outro resultado observado foi o potencial de redução da pressão ocular, característica que amplia o interesse científico sobre a tecnologia.
Esses achados, entretanto, não significam que o produto já esteja liberado para utilização pela população. Novos passos regulatórios e de desenvolvimento são necessários antes que um medicamento possa chegar às farmácias.
Tecnologia pode evitar limitações de tratamentos convencionais
Uma das motivações da pesquisa está justamente nos efeitos adversos que podem acompanhar alguns tratamentos utilizados por períodos prolongados.
Medicamentos corticoides, por exemplo, possuem papel importante no tratamento de diversas inflamações oculares, mas precisam de acompanhamento médico porque podem contribuir para problemas como catarata e elevação da pressão intraocular em determinados pacientes.
A nova formulação pretende explorar as propriedades do CBD buscando uma alternativa terapêutica para controle de inflamação e dor.
Isso não significa, porém, que pacientes devam substituir tratamentos prescritos atualmente por produtos contendo canabidiol.
Colírio de canabidiol ainda não está disponível nas farmácias
Esse é um ponto importante para quem se depara com notícias sobre a pesquisa.
O colírio desenvolvido pelos pesquisadores da USP ainda não é um medicamento disponível comercialmente.
A tecnologia encontra-se em processo de desenvolvimento e transferência para o mercado.
A formulação teve pedido de patente realizado e aguarda o processo de registro definitivo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Para que a inovação avance para produção em maior escala, os pesquisadores também procuram despertar o interesse da indústria farmacêutica.
Uma eventual chegada às farmácias dependerá, portanto, das próximas etapas de desenvolvimento, produção e das autorizações regulatórias aplicáveis.
Pesquisa reúne medicina e tecnologia farmacêutica
Outro aspecto interessante do projeto é seu caráter multidisciplinar.
O trabalho combina conhecimentos relacionados à oftalmologia, farmacologia, nanotecnologia e desenvolvimento de medicamentos.
Enquanto uma área investiga os efeitos terapêuticos da substância sobre os olhos, outra precisa encontrar uma maneira eficiente e segura de transportar o princípio ativo até o local desejado.
A nanoemulsão é justamente uma das tecnologias utilizadas para tentar solucionar esse problema.
Canabidiol pode ganhar novas aplicações na medicina
O CBD já é objeto de pesquisas em diferentes áreas da saúde, e o estudo desenvolvido na USP demonstra como seus possíveis usos continuam sendo investigados.
No caso das doenças oculares, a inovação está não somente na substância escolhida, mas principalmente na maneira como ela é administrada.
Se as próximas etapas confirmarem segurança e eficácia para indicações específicas, a tecnologia poderá contribuir para o desenvolvimento de uma nova alternativa no tratamento de determinados processos inflamatórios e dolorosos dos olhos.
Até lá, o colírio deve ser entendido como uma tecnologia em desenvolvimento, e não como um tratamento já disponível para pacientes.
Pesquisa brasileira pode chegar à indústria
Transformar uma descoberta acadêmica em medicamento disponível para a população envolve um caminho que vai muito além do laboratório.
São necessárias avaliações científicas, desenvolvimento industrial, produção em escala, controles de qualidade e cumprimento das exigências dos órgãos reguladores.
Por isso, uma das próximas etapas apontadas pelos pesquisadores é justamente estabelecer parcerias com empresas do setor farmacêutico.
A pesquisa mostra como a integração entre universidades e empresas pode ser fundamental para transformar resultados científicos em tecnologias efetivamente disponíveis para a sociedade.
Fonte: reportagem publicada pelo Jornal da USP em 29 de setembro de 2026, sobre tecnologia desenvolvida por pesquisadores da USP de Ribeirão Preto.



